A dor no texto: a relação do corpo com a escrita

“A escrita não escolhe as condições em que nasce. A escrita produzida no cansaço carrega o cansaço; e isso, muitas vezes, é o que a torna verdadeira.”

Descobri recentemente que a dor física carrega uma reflexão sobre a finitude que só se manifesta com força quando a saúde ausenta. Há algo contraditório nesse movimento — pensar o corpo apenas quando ele impõe sua presença, quando o contra-ritmo entre o que se decide e o que se vive se torna audível demais para ignorar. A atenção que deveria ser contínua se revela intermitente, convocada só pelo colapso, como se o corpo precisasse doer para merecer ser pensado. Pensa-se o corpo pela sua falta.

O corpo fragilizado não desaparece do processo — ele se instala nele, ocupa espaço na frase, interfere no ritmo com que se pensa, altera a velocidade com que as ideias chegam e partem. Escrever com dor é escrever com mais camadas do que se pretendia; o texto carrega o estado do corpo que o produziu, ainda que isso não apareça declarado em nenhuma linha. Quem lê recebe o texto alisado, sem saber que atrás de cada frase houve uma negociação silenciosa entre o que o corpo permitia e o que a ideia exigia; o parágrafo que parece fluir escondeu, antes, uma pausa que o corpo impôs. A fragilidade é também matéria — ela compõe, mesmo quando atrapalha, mesmo quando interrompe. O rastro fica, mesmo invisível.

Se não sou senhora da minha própria casa, quero ao menos coexistir com ela — com esse corpo que se esconde enquanto observa, que abraça sem pedir, que opera segundo lógicas que antecedem qualquer decisão consciente. Há uma gramática própria nesse corpo: sintomas que funcionam como sintaxe, sensações que se repetem como cláusulas de um texto que ele escreve por conta própria, em paralelo ao que escrevo com as mãos. Coexistir é diferente de controlar; é reconhecer que o corpo tem seus próprios argumentos, seus próprios ritmos, suas próprias formas de presença que não pedem autorização para se manifestar. E que essa presença, mesmo quando inconveniente, mesmo quando dolorosa, é parte do mesmo processo de escrever, de pensar, de existir. Não peço licença a essa gramática; aprendo, aos poucos, a lê-la.

A dor lembra que as decisões são esforço fadado ao fim comum — esteja certa ou errada, o destino do corpo é o mesmo. Um dado que o pensamento precisa incorporar sem dramatizar. A ficção da neutralidade sustenta boa parte do que se ensina sobre pensar — a ideia de um sujeito que produz conhecimento de lugar nenhum, sem corpo, sem cansaço, sem história. A dor desfaz essa ficção com uma eficácia que nenhum argumento sozinho alcançaria: basta doer para que o sujeito neutro se mostre impossível. O corpo que escreve é o mesmo corpo que envelhece, que adoece, que cansa; e ignorar isso em nome de uma suposta neutralidade do sujeito pensante é uma fantasia que a dor se encarrega de desmanchar.

A glória, talvez, esteja em reconhecer esse limite — reconhecê-lo como lembrete sombrio da natureza que somos, presente em cada gesto de escrita, em cada noite em que o corpo recusa continuar enquanto a mente ainda tem algo a dizer. Há noites em que a vontade ainda quer avançar e o corpo já decidiu que não; escrever, então, é aceitar o que sobra da vontade depois que o cansaço faz a sua parte. O texto que nasce dessas noites não é menor por isso — é apenas outro, moldado por uma economia diferente de forças. Escrever é também negociar com esse limite, aprender a trabalhar com o que o corpo oferece em cada momento, sem exigir dele uma constância que ele nunca prometeu. A escrita não escolhe as condições em que nasce. A escrita produzida no cansaço carrega o cansaço; e isso, muitas vezes, é o que a torna verdadeira.

O corpo decompõe-se enquanto opera. Matéria que se desfaz ainda em movimento, que se mistura com a terra mesmo antes de chegar a ela — porque a decomposição é um processo contínuo, não um evento final. Talvez por isso o texto também se decomponha assim que termina: a palavra, mal escrita, já começa a se transformar em outra coisa — leitura, memória, esquecimento. Esse corpo que escreve é o mesmo que um dia será terra; e saber disso é talvez a forma mais honesta de habitar o presente. Escrever sobre si é escrever com e sobre esse corpo — inteiro, parcial, dolorido, presente, decompondo-se e operante ao mesmo tempo.