Diversidade é uma palavra com múltiplos significados que tem dominado discussões e orientado ações.
Para nós, professores e professoras, mais que palavra, é uma obrigação.
Estamos na porta de entrada do recebimento de novos grupos que chegam às nossas instituições. Somos, por vezes, o primeiro rosto que encontram e o contato mais frequente que terão. Portanto, nossa obrigação é maior: somos a materialização dessa busca por acolher e fazer germinar espaços mais diversos
Primeiro ponto sobre diversidade: não é concessão; diversidade é conquista, é fruto de lutas por direitos e conquistas políticas de grupos que não se viam representados em diversos espaços. Vou enfatizar esse ponto: não é concessão, é conquista!
Segundo ponto, a diversidade se concretiza no dia a dia, na vivência em cada e em todo espaço da universidade, na sala de aula, mas também nos corredores; na sala de estudo, na biblioteca, e na lanchonete; nos murais e nos folhetos de comunicação; na linguagem que usamos e nos exemplos que damos em aula; nos livros que adotamos.
Para que esse entendimento se consolide entre nós, vou dar exemplos.
Aula inaugural para estudantes ingressantes; auditório lotado; diretor, vice-diretor, coordenadores de curso farão as boas-vindas aos ingressantes. Uma estudante, mulher trans, olha em volta. Ela se dá conta de que, apesar de o auditório estar lotado, à sua volta não há ninguém sentado. Ela está isolada. No decorrer da sessão, sente algo bater em sua cabeça: alguém havia jogado um copo vazio em sua direção. Essa foi a sua experiência de chegada no ensino superior. A coletiva Xica Manicongo fez um levantamento e, na Universidade de São Paulo, a USP, há apenas 88 pessoas trans. Percentualmente, isso é 0,01% do corpo estudantil. É 20 vezes menor do que o percentual de pessoas trans na população em geral, conforme os dados da ANTRA.
Outra cena, uma moça negra, estudante de contabilidade, está na biblioteca de sua instituição. Uma pessoa se aproxima e lhe pede uma informação sobre o acervo; ela explica que é estudante, que não trabalha na biblioteca; a pessoa insiste, parece não acreditar que ela é estudante daquela universidade; novamente ela explica: “Eu não posso te ajudar, eu não trabalho aqui, eu estudo.” Essa estudante, hoje contadora, já convivia diariamente com o fato de que era a única pessoa negra de sua turma. A ausência das pessoas negras no corpo docente e discente era flagrante. Como ela nos disse uma vez: “Eu só me via nas tias da faxina.”
Em outro momento, essa mesma estudante ouviu de um professor que, se ela queria encontrar estágio, deveria mudar o seu cabelo. Ela usava, e ainda usa, o cabelo afro, comprido, em cachos que lhe caem pelos ombros.
Estou trazendo exemplos de vivências diárias de estudantes, mas poderia falar de egressos ou de professores. A falta de diversidade se faz sentir no dia a dia, ela se materializa em processos de invisibilização e de exclusão. Ela é comunicada em exemplos constantes que dão conta de ausências e não de presenças, de silenciamento e não de voz.
Precisamos ser os primeiros a mudar esse quadro em um processo que é primeiro de autoeducação, que envolve necessariamente a escuta e o questionamento; e depois de prática, de prática motivada e contextualizada, ao nos darmos conta de que em aula nada é inadvertido, tudo tem significado.
Recentemente ouvimos de um egresso uma pergunta sobre sua instituição de formação. Ele fazia parte de uma banca de projetos e assistia a uma apresentação de estudantes, egressas e pesquisadoras sobre uma proposta para criar e manter espaço de fala sobre temas que não estão normalmente presentes nos currículos.
A pergunta dele: “Vocês acham que haverá abertura para esses temas? A faculdade mudou? Porque quando eu estudava lá, era uma torre de marfim, não se podia falar em preto e em pobre.” Ele, um homem negro, de família pobre, que hoje se dedica a projetos voltados à educação. Não vou contar sobre a resposta que elas deram. Ele se formou, mas nos contou que não se via lá, que só ia para as aulas, que não tinha razões para ficar.
A diversidade se concretiza no dia a dia, em espaços em que não há diversidade, todas as pessoas são iguais. Como em uma foto que circulou recentemente mostra, em espaços em que não há diversidade, todos parecemos iguais. E geralmente não nos perguntamos por quê, não questionamos o que leva a isso. Mas diversidade é conquista, é direito, e muitos grupos que se viram excluídos lutaram para estar e lutam para permanecer nesses espaços, porque não se veem neles, porque são os únicos que não são iguais a todos os outros.