Por que escrevo?

Escrever sobre si é colocar-se no papel — repousar e fazer guerra consigo, confrontar-se com as únicas armas disponíveis: os pontos e as vírgulas. É um território que não se busca resolver, mas compreender; um espaço onde a clareza funciona como movimento em direção a algo que permanece, deliberadamente, em aberto.

A escrita de si é um gesto de aproximação com aquilo que nos constitui e que, paradoxalmente, só se torna visível quando tentamos nomeá-lo. Nomear é já transformar; e o que emerge no papel carrega marcas desse deslocamento, porque a linguagem recria a experiência, a refrata em ângulos que o vivido sozinho não produzia, entregando de volta algo simultaneamente familiar e irreconhecível.

A revisão, aqui, carrega outra dimensão além da textual. É também sobre si mesma, sobre o que se disse e como se disse — eu disse isso? Reviso as palavras, mas reviso a mim. Há uma estranheza produtiva nesse retorno: o texto que releio já não é inteiramente meu, porque quem o escreveu e quem o relê não habitam o mesmo instante, não carregam o mesmo peso. O intervalo entre a escrita e a releitura é, ele próprio, um argumento sobre a instabilidade do sujeito.

As frases tornam-se extensão do corpo; são símbolos que carregam experiências, que as representam sem jamais esgotá-las. Há uma corporalidade na escrita que raramente se nomeia — o ritmo da frase longa que acelera antes de respirar, a frase curta que sela o que não cabe em mais palavras, a vírgula que adia o fechamento porque ainda há algo por dizer. Escrever é também uma prática somática: o corpo sabe, antes da mente, quando uma frase está certa.

Por que escrevo? O papel — e a tela — funcionam como elo: as experiências se conectam nessa superfície, encontram forma, tornam-se transitáveis por outros. Mas o elo carrega opacidade. Entre o que vivi e o que escrevo, existe já uma tradução; e entre o que escrevo e o que alguém lê, existe outra — de modo que o texto circula carregando versões de mim que não reconheço inteiramente, versões elaboradas por leitoras a partir de suas próprias experiências, seus próprios corpos, suas próprias guerras internas com a linguagem.

O abismo entre as palavras e seus significados é o tempero da leitura, aquilo que a mantém viva e irredutível a um único sentido, que a preserva aberta para além da intenção de quem escreveu. Uma frase pode ser lida cem vezes e produzir cem experiências distintas — porque quem lê também traz consigo um território, também carrega suas marcas, também chegou ao texto depois de ter feito guerra consigo mesma em algum outro lugar.

Quando lemos a história de alguém, a imaginamos a partir de nós mesmas. A leitura é uma projeção habitada — entramos no texto com tudo que somos e saímos com algo que não éramos antes, ainda que não saibamos nomear exatamente o que mudou. Esse movimento de entrada e saída acontece em silêncio, muitas vezes sem que a leitora perceba que foi atravessada, que o texto deixou sedimento.

E nesse instante já não existe Eu e o Outro como instâncias separadas — somos nós: eu, o outro, o que escrevi e a interpretação deste. A leitura dissolve, provisoriamente, a fronteira entre subjetividades; as palavras constroem um território comum onde coabitamos sem nos fundir, onde a diferença persiste dentro da partilha. Somos aquilo que as palavras nos permitem ser — e também aquilo que elas não conseguem conter, o excesso que permanece além de qualquer frase, o que fica quando o texto acaba e o silêncio retorna, ainda que não sejamos só palavras.

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